Greve

June 26th, 2009

Faz mais de dez dias que nao varrem o céu.

Making Worlds

June 23rd, 2009

Ouvi dizer que estava acontecendo uma tal de Bienal de Veneza e fui conferir…

Nao posso negar a emocao de visitar um dos maiores e mais importantes eventos de artes visuais do mundo e nem a de colocar os meus pesinhos em uma cidade tao pitoresca quanto Veneza.

Aviso de antemao que quem chegar lá com a expectativa de todos os clichês romântico-turísticos corre grande perigo de se decepcionar. Com seus prédios antigos em péssimo estado, a cidade pode ser confundida com um grande cortiço. O passeio de gôndola? Esquece! Além de ser caro, rola engarrafamento nos canais e os gondoleiros ficam gritando e tirando sarro entre si. Sem falar na massa de turistas e de pombas que lotam os destinos mais confirmados pelos guias de viagem. Pior ainda quando eles se juntam para posar pra foto.

Mas quem chegar lá de coracao e olhos abertos e se permitir ter um olhar livre, vai se encantar com as cores, a luz e as peculiaridades de Veneza. O fato da cidade nao ser restaurada, faz com ela se mantenha autêntica e nao seja confundida com um cenário qualquer. A água dos canais é azul-esverdeada e nos quatro dias em que fiquei lá, havia muito sol e o céu era de azul intenso. Entre os prédios há muitos varais, que reforçam a idéia de cortiço, mas que colorem ainda mais a cidade. No final da tarde até quase nove horas da noite a luz dourada e os reflexos da água realçam as cores dos prédios.

Mesmo sabendo que nao tem como nao se perder em Veneza, comprei um mapa. Me perdi muito e o mapa nao ajudou em nada. Desisti de me encontrar e apenas caminhei deixando o acaso guiar meu primeiro dia na cidade. Como nao há ruas, apenas becos e ruelas, nao há carros. Tudo que se faria com um carro, um ônibus ou um caminhao é feito com barco. Transporte coletivo, taxi, ambulância, viatura de polícia, lixeiro, transporte de mercadorias. As casas nao têm pátios. A água bate direto em suas paredes e os barcos particulares ficam estacionados nos fundos. Como será que é ser crianca em Veneza? Difícil jogar bola e andar de bicicleta.

O segundo dia foi dedicado ao Giardini, que é um parque onde tem uma mostra principal em um prédio grande e, em prédios menores, ficam os trabalhos dos artistas representantes de cada um dos países participantes da Bienal. Ir de um prédio a outro implica em caminhar pelo parque, o que é uma boa estratégia de pausa entre uma exposicao e outra. Esses prédios menores ficam espalhados pelo parque e cada um deles tem características bem próprias. Interessante perceber como o espaco expositivo influencia quando o trabalho é feito especialmente para determinado fim. Prédios mais neutros, com paredes e salas definidas, abrigavam obras mais “tradicioanais” e “independentes”, mas prédios com um estilo mais ousado, como o dos países nórdicos, que era todo de vidro e tinha três árovores no meio do salao, acabam provocando um diálogo maior entre o espaco e a obra.

Do que vi no Giardini, o que mais gostei foram dois trabalhos da artista que estava representando a Holanda, Fiona Tan. Acho que pela primeira vez na vida sentei e quis assistir um vídeo-arte até o fim. Eu só conseguia pensar “é isso, é isso”, porque sempre tive muita bronca com os vídeos que sao longos e que, mesmo que subjetivamente, nao dizem, nao fazem sentir e nem pensar nada. Era um trabalho bem feminino, projetado em duas telas verticais, uma ao lado da outra. Imagens de duas mulheres, uma mais velha (uns 60) e outra mais nova (uns 30), pensando e lembrando de algumas situacoes. O som era ambiente, na maior parte rolava um silêncio. Nao vou prosseguir com a descricao, porque nao fará muito sentido, mas o trabalho era realmente muito bonito.

O outro trabalho estava exposto em uma sala menor. Eram seis telas de LCD verticais com vídeos em preto e branco de pessoas posando para uma foto. Uma foto dura um milésimo de segundo e no vídeo esse tempo foi esticado por minutos e o ângulo da câmera ia sendo aumentado, contextualizando essas pessoas dentro do espaco onde se encontravam. Dos seis, gostei mais de dois (impossível fugir dos juízos de valor): um menino de uns três anos, de pijama – a câmera ia ampliando o campo de visao e iam aparecendo os brinquedos que ele havia espalhado pela sala da casa. Ele todo concentrado, mexendo apenas as maosinhas, olhando pra câmera. O outro era de um pai e um filho que têm / trabalham em um armazém. O pai atrás, o filho na frente, pose rígida. O filho desviando o olhar, o pai olhando sério pra câmera. Tudo em silêncio. Esse prolongamento do tempo e abertura do campo de visao acabam entregando o retratado, mas ainda assim resta muita subjetividade. Um trabalho de extrema sensibilidade.

Rápida e indireta comunicacao por canais incertos da rede.

No domingo, meu terceiro dia em Veneza, tive uma doce surpresa! Esperei quarenta minutos na frente do Arsenale, o outro local da Bienal e nosso ponto de encontro. Comi uma maca. Procurei um orelhao, depositei nele todas as moedas que carregava na bolsa e ouvi uma mensagem em italiano, compreensível mesmo para quem nao fala o idioma: a ligacao nao pôde ser completada. Retornei ao ponto de encontro, fui ao banheiro, voltei. Chegou uma harpista. Esperei ela se preparar e comecar a tocar. Depois de uma hora e quarenta minutos desisti e entrei no pavilhao. Na primeira e grande sala estava um trabalho lindo da Lygia Pape. Deu um orgulho. Pensei nos 36 alemaes que participavam da mesma excursao que eu e que mal falavam comigo e sorri de cantinho. Depois de trinta minutos meu telefone tocou. Corri pra frente do Arsenale. [E o tempo parou por 24 horas] Encontrei minha querida amiga Gabi que eu nao via há mais de dois anos acompanhada de seu bem humorado namorado. Veneza nao teria sido a mesma sem essa companhia tao especial. Depois de 24 horas exatas nos despedimos na frente do mesmo Arsenale e voltei à Lygia Pape.

No Arsenale, meu maior objetivo era encontrar o trabalho da Miranda July. Distante das expectativas que criara, fiquei sentanda entre os trabalhos e embaixo do sol durante muito tempo pensando em alguma solucao para o problema. Eu nao poderia simplesmente ignorar Miranda July. Tentei reagir.

Voltei para Dresden sem ter dado conta de ver toda a Bienal e nem metade dos eventos paralelos que estavam acontecendo na cidade. Primeiro sentimento-conclusao: “arte” é um nome tao curto para uma coisa tao grande e abrangente, que pode ser tantas coisas tao diferentes e tao contraditórias ao mesmo tempo. Segunda: estava achando que a Bienal de Veneza seria o evento mundo-arte mais profissional que eu veria na vida, mas apesar dos mais de cem anos de tradicao, encontrei muito amadorismo. Preciso dizer que achei isso bom! Nada de frescura. Nesse Arsenale, por exemplo, que é uma fábrica velha desativada, rolaram vários trabalhos no pátio e também em pequenas casinhas abandonadas no meio do mato. Rolava um medinho de entrar, porque nesse mato tinha uns lagartos (tá bom, uns lagartinhos, mas mesmo assim…) que acabaram invadindo algumas partes da exposicao. Dava só pra ouvir o barulho deles caminhando… arrepio na espinha! Enfim, a viagem a Veneza foi a coisa mais legal que aconteceu nesses quatro meses europeus.

The Limits of Control

June 1st, 2009

Assisti hoje ao novo filme do Jim Jarmusch, Limits of Control. Quando o filme terminou me dei conta de que tudo que eu achei que fosse importante, nao era e que tudo que eu achei que nao fosse fazer diferenca, fez. Grande filme.

Domingo

May 31st, 2009

Hoje acordei com uma música instrumental vindo da casa de algum vizinho. Lembrei das manhas de domingo de quando eu era crianca. Eu sempre acordava com o som que o pai ouvia na sala. Esse era o astral dos domingos: música alta, café da manha em família, ler jornal e tomar chimarrao, com sorte um passeio na Redencao ou na Praca Japao, e entao algum almoco especial com sobremesa. Depois que o pai parou de acordar cedo e ligar o som, os domingos nunca mais foram os mesmos.

Diariamente

May 31st, 2009

Confesso que demorei bastante tempo até me interessar pelo youtube, mas agora chegou a hora de usufruir daquilo que ele oferece. Fonte de nostalgia e diversao e consumidor do meu tempo nos últimos dias.

Faz de conta que

May 28th, 2009

Hoje no início da tarde fui até o aeroporto. Na primeira metade do trajeto, imaginando que ia pra casa. Na segunda, que encontraria o Bruno no final da linha. Segui sorrindo feito crianca. Aeroportos, estacoes de trem e rodoviárias sao pontos de partida e reencontro. Desci do trem, recebi as informacoes que precisava, embarquei novamente. Chuva batendo na janela e escondendo a paisagem.

Viver o novo e nele reconhecer o familiar

May 27th, 2009

Andar de madrugada na rua, com chuva e barulho de trovao. Cruzar a cidade de blicicleta e ter o caminho iluminado pelo sol dourado do fim da tarde. Sentar na janela de um trem e ouvir a trilha das noites de amor. Curto-circuito. Eu preciso de um plano. Ilha de idéias possivelmente nao compreendidas. Romper com o medo de nao ter o que dizer e escrever. Palavras em bolha de sabao estourando sempre no entre. Exploracao de espacos virtuais. Já nao cabe mais aqui dentro, nao cabe mais. Culpa anulando subjetividades, silêncio assumindo sinceridades. Automatismo. Já nao cabe mais.

Leve, como leve pluma
Muito leve, leve pousa.
Muito leve, leve pousa.

Na simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma
Suave coisa nenhuma.

Sombra, silêncio ou espuma.
Nuvem azul
Que arrefece.

Simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma.
Que em mim amadurece

Ritmo de Samba

May 23rd, 2009

Aqui em Dresden tem vários conjuntos de edifícios de estudantes e geralmente em cada um desses conjuntos tem um porao, que é um Studenten Club. Para evitar a concorrência, cada um desses bares tem uma programacao diferente. Nas tercas-feiras, por exemplo, acontecem as noites internacionais no Count Down. O bar empresta a cozinha e da um apoio no valor de 50 euros para a compra de itens necessários à organizacao da noite.

De acordo com a temática da noite, os estudantes de cada país participante do programa Erasmus se responsabilizam por preparar alguma comida típica, fazer uma selecao de músicas e uma apresentacao do seu país. Nessa semana foi a vez do Brasil.

Para mim, o mais legal de tudo foi a organizacao do evento. Cheguei até a cogitar um breve arrependimento por nao ter cursado administracao! Eu e um grupo de brasileiras nos encontramos na segunda-feira de manha e saímos à procura de ingredientes típicos. Depois das compras, nos reunimos na cozinha aqui de casa e cozinhamos por sete horas seguidas. Sem mentira, sete horas dentro da cozinha. Mas eu preciso confessar que foi tudo muito divertido!

Encontramos feijao preto, conseguimos um liquidificador emprestado e fizemos um santo caldinho de feijao. A aceitacao do pessoal internacional que compareceu ao evento foi ótima, pois nao sobrou nem um pouquinho. A idéia também era fazer pao de queijo, mas El Mercadito, local onde se pode comprar polvilho, estava fechado. Com os ingredientes que já havíamos comprado, improvisamos uns bolinhos de queijo, que também ficaram uma delíca.

Para completar, fizemos negrinho. No supermercado tem um leite condensado russo muito parecido com o nosso. O gosto nao ficou tao bom, porque nao tinha nem Nescau e nem granulado da Neugebauer, mas deu pro gasto. Caipirinha também nao podia faltar. Encontramos três tipos de cachaca pra vender aqui. Optamos pela mais barata, a Ritmo de Samba. Como a prioridade foi dada aos estrangeiros, nem cheguei a experimentar. Melhor assim, porque devia ser ruim pra caramba!

Dead Man Walking

May 22nd, 2009

Hoje, pela primeira vez, choveu de fazer barulho. Pingos grossos caindo sobre carros e telhados. Trovoes quebrando o ritmo. Dormi bastante e dormi bem. Sonhei distante.

Perto do meio dia saí em busca de alguma roupa com a qual eu pudesse ir à Ópera. Como boa libriana que sou e só podendo entrar no provador com cinco pecas por vez, fiquei três horas dentro da mesma loja.

Por intermédio do pessoal do Erasmus, conseguimos comprar ingressos muito baratos. Assistimos a uma ópera moderna chamada Dead Man Walking, na Semperoper. Ouvi dizer que a Semperoper é uma das casas de ópera mais famosas da europa. Se é verdade, eu nao sei, mas que lá é tudo muito bonito, ah é!

Sobre distâncias e diferencas

May 21st, 2009

Minha amiga Fada Funkeira foi minguando. Em um ano ela foi desaparecendo nao só dos nossos encontros, mas também de sua própria existência. O nome para o que aconteceu poderia ser um só: crack. Mas tentar explicar uma situacao que é complexa demais colocando a culpa na ponta, na pedra que queima, é quase tao grave como negar o problema, ou negar uma realidade.

Uma associacao de idéias fez com que eu, aqui longe, pensasse nela. Meu funk era o da Jackie Tequila de 1994. Nesses quinze anos, entrar na adolescência, ser adolescente, deixar a adolescência e, por fim, fazer escolhas e agir de acordo com aquilo que se acredita. Nesse mesmo período de desenvolvimento pessoal, um anti-desenvolvimento social foi enchendo as sinaleiras e depois as ruas de criancas e adolescentes abandonados por uma mae chamada sociedade. E foi fazendo com que a cidade se cercasse por estar cada vez mais ameacada por uma vilã chamada violência.

É curioso perceber como a distância relativiza as relacaoes entre as pessoas e pode aumentar ou diminuir as diferencas que existe entre elas. Estar em outro país e encontrar alguém da mesma origem, teoricamente, já é motivo suficiente para ser amigo, freqüentar a casa e fazer programas em parceiria. Ser estrangeiro é ser a representacao do próprio país para os outros. Mas como representar um país inteiro?

Como é ser brasileiro no Brasil? Como é ser brasileiro no exteiror? Existe coerência? Ou será que quem no Brasil nunca pegou um ônibus lotado no final da tarde, nunca vai no centro da cidade, porque além de ser perigoso, é sujo e tem muita gente feia, pode tentar gingar na malandragem da periferia quando está fora? Quando se está longe, é mais fácil reconhecer e, até mesmo se identificar com uma realidade que se prefere ignorar. Valores sao universais, implicam em coerência.